De Silviano Santiago para vocês : umas das pérolas do seu "EM LIBERDADE".
foto-Lavínia Vlasak(atriz)
A paixão à priori
Amar não é o bastante. O poeta fala do corpo da amada, do seu desejo de olhá-la,acariciá-la,beijá-la. Do seu desejo de possuí-la, com amor ou volúpia. O poeta fala, e subentende-se que ele ama, olha, acaricia,beija. Possui uma mulher concreta, de carne e osso, que ele, carinhosamente, envolve com palavras ao fazer o seu poema.Isso não é suficiente. O amor não é o ponto final da experiência humana. O amor esgota-se no gozo carnal, sempre renovado (é claro), mas restrito na sua fome de conhecimento. A energia do homem, ou força da sua literatura não se esgotam no amor.Não se enriquece a situação transferindo-se para o campo do divino a experiência carnalda atração dos corpos.Maria não é musa, nem o pode ser na triste e eterna condição de virgem.Tampouco gozamos com o intuito primordial de procriar.O amor, quando se monogamiza em casamento, ou se espiritualiza em aperfeiçoamento da geração futura, vira dever.O amor não é casto.Se essas são formas degradadas do amor, o amor é paixão. A paixão não é masculina;nem feminina.O sexo é um componente como qualquer outro, sem hierarquia ou domínio. Encontrei a paixão como meta da minha situação significativa no mundo.PAIXÃO EM TODAS AS DIREÇÕES E POR TODOS OS LADOS. Saber que o meu corpo se deixa atrair por tudo o que me cerca no cotidiano.Deixa-se atrair, é atraído, é invadido, possui e é possuído.Serve de motor para que a máquina do corpo continue a funcionar, certificando-me de que estou realizando coisas concretas ao meu redor.Só compreendo o fazer como paixão.Com paixão entrego-me a todas as formas do fazer:o fazer das engrenagens íntimas (os intrincados mecanismos do corpo humano, e sua higiene diária); o das atividades prazerozas (a comida, a mulher, o cigarro e a aguardente); o fazer profissional (este escrver, por exemplo); o fazer mais nobre que é o de transformar o homaem e a sociedade num homem menos sofrido e numa sociedade mais justa. Tudo isso feito com paixão (...).
Escrito por Flaviu às 20h34
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