:::::::::: Sétimo Sono
... O lençol menor do que a encomenda, estica daqui, estica de lá, ficando o dedão em riste ao sabor dos ventos. Olha que presa fácil para as pequenas muriçocas! Encolhe-se então, faz-se feto, engata as duas pernas entre os braços e se cobre como uma múmia sonâmbula; dos pés a cabeça. Vê-se feliz, o plano deu certo, as muriçocas zunem de insatisfação e o vento alisa o lençol, sem arranhar com frieza a pele frágil. Pisca um olho, pisca o outro, fecha tudo de uma vez só. O corpo vai afundando lentamente no colchão macio e de repente, abre-se um buraco negro, e ele vai flutuando calma e lentamente para o mundo de pálpebras fechadas e delicado cafuné. Sono leve, sonhos leves e depois um rio caudaloso de puro negrume, deixa-se ir como um toco de árvore seca, vai, vai, até desembocar num mar de anjos e praças, ou num calmo lago de Iaras e botos encantados. Molha os pés numa poça d'água, reclama do táxi que o molhou ao passar veloz sobre a poça, joga sabão numa poça e levanta bolhas no céu do parque, conta o número de poças no gramado de futebol após a tempestade. O sol vermelho, deixando os cílios invocados, odiando-se mutuamente, abre, abre! Ai, como desejavam o divorcio! Acordou com a Mãe assustada, Isso lá é idade, tentando explicar a enorme poça amarela sobre o colchão que esquecera de contar durante a madrugada entre as pálpebras e o rio que chamavam de sétimo sono.
Escrito por Flaviu às 10h27
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